ainda me lembro de todas as minhas saudades
five pebbles e o worldbuilding de rain world (2017)
DIRECT BROADCAST: PRIVATE - Five Pebbles, Big Sister Moon
SOURCE NODE TRACE: FP ROOT, LTTM COMM05, LTTMROOT
FP: Please stop messaging me.
FP: I cannot help you.
FP: I cannot even help myself.
alguns meses atrás, comprei a primeira dlc do rain world na steam, desenvolvido por videocult. já era um jogo que tinha jogado algumas vezes, mas que não me interessou muito de primeira vista; é muito mais uma simulação de um ecossistema do que um jogo em si. por mais que tinha grande gosto pelas regiões, suas salas industriais, e na inteligência artificial muito bem feita da fauna, não parecia ter algo a mais alí do que na superfície. era como andar por um museu sem nenhuma informação a mostra. tudo é muito bonito mas nada te cativa.
a adição de novos slugcats com habilidades e características próprias foi o que fez me apaixonar de vez. não estava simplesmente vagando por aí sem rumo, mas sim com um leve objetivo que faltava no jogo base para trazer um pouco de diversão. matar todo bicho que aparece pela frente. utilizar todos os itens do jogo. atravessar as salas o mais rápido possível.
e é com esse pequeno objetivo que você vai conhecendo o mundo de rain world, e mais especificamente, dos seus iteradores - organismos biomecânicos colossais construídos por uma sociedade anciã já extinta há muito tempo. muito, muito tempo. tanto tempo que não há quase nenhuma informação sobre eles em qualquer lugar do jogo, exceto por suas construções metálicas já em processo de degradação.
a história do jogo é complicada, e não acho que vou conseguir abrangê-la somente em um artigo. resumidamente, os iteradores foram construídos com o único propósito de incessantemente buscar soluções para o grande problema: maneiras de deixar os ciclos de vida e morte para trás. em outras palavras, ascender.
o jogador interage apenas com dois iteradores por todas as campanhas. a primeira, looks to the moon - dócil, compreensiva e empática.
looks to the moon foi uma dos primeiros iteradores construídos, e portanto, pouco se sabia dos limites e consequências da utilização de superestruturas na sua sustentabilidade própria e na do ambiente em sua volta.
estas construções consomem quantidades exorbitantes de água para seu funcionamento. quando o sol se põe e as temperaturas abaixam, todo o vapor de água se condensa em balas perdidas que arruinam tudo em sua volta - disto o nome do jogo.
LOOKS TO THE MOON:
Water is the most important resource for our basic function. Most of our processing is outsourced to microbe strata which need a flow of clean water or else slag builds up, our processes seize, and eventually we die. It is… very painful. […]
Originally water supply was very important when placing iterators. Later there would be the great equalizer - the fact that we breathe out as much vapor as we inhale water led to there being water available everywhere, and the latest few generations could be placed almost completely freely.
as chuvas constantes criaram lamaçais enormes que tornaram inviável a habitação em qualquer lugar que pudesse ser visto. como solução, novas moradias foram construídas sobre as superestruturas - acima das nuvens. em breve, toda a população anciã já teria migrado para as novas cidades nos céus.
as limitações da primeira iteradora se tornaram aparentes, e logo em seguida suas funções já não conseguiam atender a demanda da sua cidade. com isso surge a ideia da construção de um novo iterador com uma nova cidade para dividir a carga que ela não podia cumprir.
muitas controvérsias surgiram por conta da proximidade entre os dois iteradores, mas no fim, a decisão foi ultimamente estabelecida. assim surge five pebbles, o segundo iterador. a migração de uma cidade para outra foi bem-sucedida e, por um breve momento, tudo parecia estar funcionando como devido.
LOOKS TO THE MOON:
Designing the surface world to be largely self-sufficient was a very deliberate decision, allowing my creators to live carefree lives up in their cities in the clouds.
uma interpretação implícita sobre os fatos do jogo é a de que os anciões são uma sociedade humanoide muito mais tecnologicamente avançada e com muito mais conhecimentos sobre o sentido da vida e suas filosofias.
é uma interpretação que eu discordo. tudo relacionado aos anciões é bizarro. de longe, parecem uma igreja universal que fazem absolutamente tudo em volta das suas ideias de reencarnação. toda a sua tecnologia é transbordada com propósitos religiosos e figuras simbológicas. no topo das superestruturas, murais enormes sobre a desvinculação física.
acreditava-se que a alma não podia escapar dos ciclos se ainda estivesse presa aos meios materiais e desejos, como os de luxúria e gula. vários contos sobre pessoas de ego grande que acabaram presas entre um mundo e outro. para libertar a alma, era recomendada uma alimentação a base de chá e cascalho.
ao meu ver, as criaturas que mais se encaixam como humanoides são os próprios iteradores. a primeira vista, é estranho como florestas de concreto na forma de supercomputadores podem ter sentimentos e até personalidades próprias. seres de inteligência exorbitante repletos de dúvidas e de hipocrisia.
LOOKS TO THE MOON:
And then there are polite farewells. None of us really miss the times when their cities were populated. Imagine having skin parasites that also ask for advice and have opinions…
I’m sorry, that was disrespectful. They were our parents after all.
looks to the moon não tem fortes emoções sobre os anciões, e quase nunca fala sobre eles. em contrapartida, sua função de senioridade sobre five pebbles faz com que ela seja extremamente caridosa com os outros iteradores, ao ponto de detrimência.
five pebbles, por outro lado, não gosta muito dos outros iteradores. tem grande admiração apenas por seus criadores. trata eles como se fossem seus pais. tem feição à sua história, sua religiosidade, suas opiniões. sempre desejou saber como era viver na era dourada da construção das primeiras superestruturas.
FIVE PEBBLES:
Despite all the independent power of my machinery, the relationship I had with my creators was a mutually symbiotic one.
I was built to provide for them, but there was also much I relied on them to provide for me.
em certo ponto, uma revolução acontece com a descoberta do fluido do vazio, uma espécie de antimatéria - em contato com qualquer matéria, a aniquilação acontece, destruindo o meio e liberando energia. do dia para a noite, toda a população anciã se jogou em um oceano e escapou dos ciclos, deixando os iteradores sozinhos e com um objetivo já sem utilidade.
LOOKS TO THE MOON:
It is a memento of an age long past, where my kind once stood towering above the clouds. Tolling away at a great problem passed down to us from our creators. Debating, testing, calculating, researching. Thousands of us…
Our creators chose to abandon us. Taking a gamble, and vanishing from the world. Leaving us behind to simply keep working on their problem. […]
A new cycle is unfolding. One we need not be a part of.
com a ascenção em massa dos anciões e o abandono dos iteradores, uma imagem que prevalece é a do topo da torre mais alta de metropolis, em que pode-se ver as outras superestruturas no fundo - sozinhas, distantes, e isoladas. five pebbles não conseguiu lidar bem com isso.
1591.290 - PRIVATE
Five Pebbles, Seven Red Suns
FP: […] I’m tired of trying and trying. And angry that they left us here. The anger makes me even less inclined to solve their puzzle for them. Why do we do this?
SRS: […] An analogy. You have a maze, and you have a handful of bugs. You put the bugs in the maze, and you leave. Given infinite time, one of the bugs WILL find a way out, if they just erratically try and try. This is why they called us Iterators.
FP: […] I struggle to accept being a bug.
tenho grande afeição pela analogia do inseto. desde que troquei meu antidepressivo e comecei a tomar sertralina, minhas obsessões passaram a ser memórias cultivadas em todas as tardes dos fins de semana. decepções que antes pareciam sair de dentro do meu estômago viraram poemas de amor indesejados, composições esquecidas, e mais outras mil distrações para minha cabeça.
ainda não sei se tenho transtorno obsessivo-compulsivo. não consigo relacionar minhas obsessões com as que contam nas threads do r/ocd ou por aí no twitter. não tenho nenhuma preocupação com limpeza, contaminação, tabus ou danos. minhas obsessões são mais relacionadas a superstições. um sentimento inerente de que tem algo errado comigo que faz todo mundo se distanciar de mim e me odiar.
por causa disso, sempre tive uma maneira menos prejudicial de combater a ansiedade desses pensamentos sem fazer com que eles se agravem. dedos sangrando, unhas encravadas, aftas na boca, bruxismo, desvio de septo, alopecia localizada. até o começo do ano, mais de cem chicletes por mês eram minha focinheira, só para me impedir de morder meu corpo.
infelizmente, esses métodos nem sempre funcionaram. há certos pontos em que os pensamentos só se acalmam ao tentar me explicar para todo mundo, buscar reafirmações, e logo em seguida entrar em ciclos de distanciamento. a longo prazo, tudo só piora.
five pebbles encontra conforto somente em sua busca eterna de resolver o problema de seus criadores. mesmo com um vazio interno que aumenta de forma proporcional à sua solitude, ele ativamente procura ficar sozinho. se o jogador continua a visitá-lo depois de algumas vezes, é assassinado instantaneamente.
mesmo com inúmeras tentativas de comunicação, são poucas as vezes que os outros iteradores conseguem interagir com five pebbles. a cada transmissão ignorada, mais o estado em que ele se encontrava ficava nítido, e mais o sentimento interno de vergonha. na sua mente, o contato já não era pelo desejo de sua companhia, mas sim pela demonstração de piedade.
sua única redenção seria a de encontrar a solução para a ascenção. talvez em busca de mostrar que estava certo o tempo todo, talvez pela chance de reencontrar seus criadores novamente. e assim, ele se isola dentro da sua lata, livre de todo estímulo que não esteja relacionado ao seu propósito original.
five pebbles é amplamente considerado o antagonista do jogo. quanto mais trabalha, maior é sua demanda de água dos mesmos lençóis que compartilhava com looks to the moon. aos poucos, a obsessão extraordinária foi o motivo pelo qual ocorreu o colapso da superestrutura de sua superior.
mesmo assim, ele próprio é o mais afetado por suas ações. ações desencadeadas pelo egoísmo dos seus criadores. repetidas variáveis em cada uma de suas células que o impediam de ascender por conta própria. fadado à existência eterna apenas para montar um quebra-cabeça já resolvido.
enquanto que o objetivo base do jogador é de ascender o slugcat, o final verdadeiro do jogo é obtido ao reverter os estados iniciais dos dois iteradores - tirar dos recursos de five pebbles para reanimar a estrutura de looks to the moon. não há quase nenhum remorso na realização dessa vingança. afinal, five pebbles é rude, insensível, e asqueroso. sua queda é merecida, por mais que cruel.
a redenção de five pebbles se dá a partir do seu sofrimento. o primeiro momento de empatia que o jogador sente por ele acontece somente na penúltima campanha, quando sua estrutura já está disfuncional e ele passa ciclo após ciclo ouvindo um canto de seus criadores, relembrando tempos melhores.
na última campanha, a estrutura de five pebbles já tem um novo nome: “silent construct”. em uma era que as tempestades se tornaram nevascas, a antiga superestrutura já está inteira colapsada, desabada em cima de seus próprios maquinários. five pebbles ainda está consciente, ouvindo sua música, congelando.
surpreendentemente, esse é o momento em que ele se encontra em paz. pela primeira vez, a presença do jogador é bem-vinda.
FIVE PEBBLES:
…
It is… warmer… today.
Thank you… for… company.
a transição de um vilão narcisista para um personagem trágico acontece somente quando a dor de five pebbles muda do mental para o físico. five pebbles estava muito pior quando sua estrutura estava em completo funcionamento, tendo que conviver com suas saudades e decisões. tudo fica muito mais calmo ao absorver para si todo o sofrimento em sua volta - aceitando o fracasso, todas as suas preocupações se tornam verdade. não há mais o que remoer.
em uma das campanhas, a entrada da estrutura de looks to the moon está colapsada, tornando a região inacessível. por causa disso, as pérolas encontradas pelo mapa (que servem como armazenamento de dados) são lidas por five pebbles no lugar dela.
quando looks to the moon recebe estas mesmas pérolas, ela sempre lê o seu conteúdo e comenta sobre o contexto delas para o jogador. five pebbles, por outro lado, não tem interesse algum na maioria das pérolas, nem compartilha muitas informações sobre o que elas se tratam. no lugar, fala sempre sobre um mesmo assunto.
FIVE PEBBLES:
Gold Pearl (CC): I regret what has happened, but I can’t go back now. Not after what I’ve done. I need to fix this, and try again.
Dark Green Pearl (SI_west): I lashed out, because out of everyone, they were the last individual I wanted to confront me about my mistake… I can’t go back now. All I can do is try to recover and try again. I have to.
Olive Green (SI_chat4): We are both doomed if I do not find a way to reverse its effects, but the chances of doing are slowly vanishing. Please let me get back to work.
Viridian (GW): And then, I hurt the one person who I thought understood what I was trying to do… Please leave with this. I won’t want to think about it. Not until I’ve recovered.
Pale Green (UW): None of this matters any more. The only displeasing presence I have now is you. Allow me get back to my work.
five pebbles foi construído com uma obsessão pré-programada e fracassou afogado nos seus erros, por decisão própria. seu trabalho era o único alívio para suas angústias, até o momento que trabalhar também se tornou uma delas. e assim terminou preso em sua lata, relembrando suas saudades, observando a vida evoluir em sua volta.
mesmo que o final da última campanha do jogo traga um final agridoce para os dois iteradores, não quero dar mais spoilers. na verdade, concluo com a última transmissão de looks to the moon antes do seu colapso, centenas de milhares de anos antes do fim propriamente dito.
[LIVE BROADCAST] - [ANNOUNCEMENT]
Big Sis Looks to the Moon to Local Group
BSM: This will be my final broadcast to the local group.
BSM: Within several cycles my structure’s legs will fail. Even if Five Pebbles were to calm, the damage has already been done.
BSM: […] I can’t excuse his actions, but I understand his frustration. We all share that. I only wish we had the chance to speak one last time.
BSM: Thank you, everyone. I am happy not to be alone.
a última conversa entre eles nunca ocorreu de fato. talvez estejamos somente na companhia de nossas esperanças.










